É obrigatória, antes de mais pormenores, uma apreciação geral das canções pré-seleccionadas para o Festival RTP da Canção 2009.
O primeiro facto a sublinhar é a tentativa, por parte do júri, de fazer representar o maior espectro possível de estilos musicais. Embora esse critério tenha deixado de fora alguns concorrentes importantes, e aberto a porta a algumas canções com pouco valor, creio que terá sido a solução acertada, a bem da diversidade.
Assim, podemos encontrar nesta selecção registos que vão da música tradicional ao rap/hip-hop, passando pelas clássicas baladas, pelo pimba-latino e o euro-pop. Pouco surpreendente é a persistência de umas quantas canções com referências ao passado histórico e à suposta tradição multicultural portuguesa, recorrendo aos habituais lugares comuns e frases feitas.
A apreciação geral não é impressionante. Comparando com anteriores edições do Festival, nota-se um maior equilíbrio entre as canções a concurso, apesar da diversidade dos géneros. No entanto, e talvez como consequência, nenhuma das composições se destaca amplamente pela sua qualidade, tendo em conta os objectivos
ESC 1996: Portugal, "O Meu Coração Não Tem Cor", Lúcia Moniz
ESC 1996: Portugal, "O Meu Coração Não Tem Cor", Lúcia Moniz
A este nivel destaco alguns casos: em primeiro lugar, a canção "Todas As Ruas Do Amor", da banda Flor-de-Lis, seguindo a linha musical de uma musica tradicional com sons modernos e de fusão, e trazendo influências dos Donna Maria, dos Alma Lusa ou da canção com que Lucia Moniz venceu este certame - "O Meu Coração Não tem Côr" - e que é, ainda, a nossa melhor classificação no Festival da Eurovisão.
Em segundo lugar destaco a incontornável Luciana Abreu, que apresenta um hino pop, que me parece declaradamente estudado e concebido para o espectáculo da Eurovisão, utilizando o lema de Obama - "Yes We Can" - como golpe de marketing e apostando, prevejo, numa forte imagem, recorrendo a todos os estereótipos do género. Um trabalho bem feito, ainda que com pontos a melhorar.
Pela negativa, não vou, para já, entrar em pormenores, mas a grande maioria das canções apresentadas, parecem ter sido escritas por autores que dão a impressão de NUNCA terem assistido a um Festival da Eurovisão. Só assim se explica a mediocridade das composições, das letras, das vozes, da apresentação dos intérpretes. A generalidade das músicas são pouco apelativas, pouco memoráveis, as letras são deprimentes ou vulgares, os intérpretes fracos em termos de prestação e inconsistentes ao nivel da voz, ou não demonstram qualquer preocupação em termos de apresentação.
Estou consciente que se tratam ainda de maquetes, mas é a partir deste momento que se começa a analisar a adequação dos concorrentes ao objectivo proposto. E a generalidade revela uma total ignorância em relação a esse mesmo objectivo.
Não quero ser pessimista, - até porque o resultado final já se adivinha - mas ainda há espaço para uma ou outra surpresa menos edificante.

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